Três anos de Open Finance: balanco regulatório e custo da implementação

Em abril de 2026, o Open Finance brasileiro completou três anos de operação em regime maduro. O balanco institucional ainda não foi publicado em formato consolidado pelo Banco Central, embora notas técnicas e relatórios setoriais permitam reconstruir o período com razoável densidade. O que se observa e um sistema que entregou parte significativa de suas promessas iniciais, ao custo de uma reorganização silenciosa do equilibrio competitivo do setor financeiro.

A escala que já se realizou

O volume de consentimentos ativos no terceiro ano de operação superou marcas que os documentos iniciais do programa, redigidos em 2019, tratavam como horizontes de cinco a sete anos. Bancos digitais, fintechs de crédito e plataformas de gestão financeira pessoal foram os principais consumidores dos dados compartilhados via o ecossistema. Bancos tradicionais, em movimento que merece registro, comportaram-se simultaneamente como fornecedores compulsórios e como consumidores volumosos, capturando dados de clientes de instituições rivais para subsidiar decisões de crédito, marketing e retenção.

O custo invisível da arquitetura

A construção da infraestrutura de Open Finance exigiu das instituições participantes investimentos que nunca foram totalizados publicamente. Estimativas conservadoras circuladas por entidades setoriais situam o agregado da fase regulatória entre dois e quatro bilhoes de reais, sem contar manutenção continuada. A distribuição desse custo entre instituições pequenas, médias e grandes não foi proporcional ao beneficio capturado, o que produziu uma das primeiras tensões políticas do período: cooperativas e bancos médios questionaram em audiências públicas o desenho de adesão compulsória.

A construção da infraestrutura exigiu investimentos que estimativas conservadoras situam entre dois e quatro bilhoes de reais ao longo do período regulatório.

O regulador como arquiteto institucional

O papel do Banco Central nesse processo foi, em retrospecto, mais ambicioso do que sua própria comunicação oficial sugeriu. A autoridade conduziu o programa em regime de governança compartilhada com a Estrutura Inicial, que reuniu representantes das instituições participantes, mas reservou para si decisões críticas sobre cronograma, escopo e responsabilidades. O modelo gerou debate institucional sobre o grau adequado de intervenção regulatória em infraestruturas de mercado, debate ainda em curso.

Os casos de uso que sobreviveram

Nem todas as aplicações prometidas em 2021 sobreviveram ao confronto com o uso real. Gestores financeiros pessoais ganharam tração em segmento específico de público de alta renda, mas não atingiram a penetração massa esperada. Originação de crédito assistida por dados compartilhados consolidou-se como o caso de uso dominante, com participação crescente nas decisões de aprovação de instituições médias. Portabilidade de serviços, prevista como vetor de competição, teve adoção mais modesta do que sua relevância retórica sugeria.

A pergunta dos próximos cinco anos

O encerramento da fase regulatória de implementação, ocorrido formalmente em 2024, transferiu o sistema para o regime de evolução consensual. Esse regime, por desenho, e mais lento e mais conservador. Iniciativas como Open Insurance, Open Investments e a integração com o ecossistema Pix avancaram em ritmo desigual. A pergunta editorial que se coloca para o período 2026 a 2030 e se o sistema manterá o impulso de inovação ou se entrara em fase de estabilização prematura, comum em arquiteturas regulatórias bem-sucedidas que cumpriram seu mandato inicial.

O Brasil, ao construir Open Finance no formato adotado, posicionou-se entre os experimentos mais ambiciosos do mundo nesse campo. A continuidade do prestígio internacional depende menos do que já foi construido e mais da capacidade de evoluir sem que o sistema se transforme em monumento regulatório. Os próximos relatórios anuais do Banco Central serão leitura institucional obrigatoria.

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