A Locaweb completou em 2026 uma transição estratégica que começou em 2016: deixar de ser apenas uma empresa de hospedagem de sites e tornar-se uma plataforma integrada de infraestrutura e SaaS para o e-commerce brasileiro. O resultado operacional reflete essa mudança — em 2025, o faturamento cresceu 31% para R$ 290 milhões, com margem de lucro ajustado de 70%, enquanto o lucro acumulado anual somou R$ 204,6 milhões, 36,5% acima do ano anterior.

Do data center à plataforma de ecossistema

Fundada em 1998 como empresa de hospedagem, a Locaweb operou por 15 anos como provedora de infraestrutura básica, servidores, domínios, hospedagem compartilhada. Essa era sua receita core, com margem operacional média de 40%. Em 2016, o modelo começou a mudar. A companhia adquiriu a Tray (plataforma de e-commerce), seguida pela Social Miner (dados e inteligência para vendas online, em 2020), Delivery Direto (gestão de pedidos para restaurantes) e mais recentemente a Samurai (especialista em conversão de tráfego).

O valor dessas aquisições não era apenas adicionar receita, mas criar um efeito de rede operacional, um cliente que usava apenas hospedagem passava a ter acesso a uma suíte completa de ferramentas de e-commerce, analytics e pagamentos. Isso transformou a Locaweb de um player de infraestrutura em um ecossistema de SaaS com backbone de infraestrutura própria.

A estrutura de três segmentos

Hoje, o portfólio de receita da Locaweb divide-se em três segmentos principais: Be Online (hospedagem, domínios, presença digital), Commerce (plataforma Tray + e-commerce SaaS) e Pagamentos. O modelo é diferente da TOTVS por um aspecto crítico: enquanto a TOTVS agrega players especializados mantendo identidades de marca, a Locaweb unifica sob uma experiência único, um cliente da Tray automaticamente tem acesso a hospedagem em infraestrutura Locaweb e pode usar a Samurai para otimizar conversão.

Essa integração horizontal criou uma dinâmica que começou a render em 2025. A receita recorrente (base de assinatura) representa 97% do faturamento. Aproximadamente 31% do crescimento de receita em 2025 veio do segmento de commerce, impulsionado tanto por novos clientes quanto por upgrade de clientes existentes migrando de hospedagem pura para suítes de e-commerce.

IA como ferramenta de diferenciação operacional

Em 2025, a Locaweb integrou capacidades de inteligência artificial na plataforma Tray, focando em três áreas: recomendação de produtos (personalizando a experiência de compra), otimização de inventário (reduzindo estoque morto) e análise de funil de conversão. Diferentemente de players que focam em "IA genérica", a Locaweb treinou modelos específicos usando dados de 100 mil clientes de e-commerce — seus próprios usuários.

Esse approach tem dois efeitos: (1) cria um moat de dados difícil de replicar, porque quanto mais clientes usam, mais dados alimentam o modelo, mais acurado o modelo fica; e (2) reduz o custo de operação, automação de análise de funil que antes exigia analista agora roda em IA, reduzindo custo por cliente atendido.

O desafio de margens e escala

Apesar do crescimento de receita positivo (31% em 2025), o crescimento de margem operacional foi menos espetacular, de 2024 a 2025, a margem ajustada manteve-se sob pressão, sinalizando que expansão de headcount (para lidar com mais clientes e casos de uso de IA) absorveu parte dos ganhos de receita. Para 2026, a expectativa do mercado é que a Locaweb consiga separar custo de suporte (reduzível via automação) de custo de desenvolvimento (crescerá com novas features de IA), permitindo que margem accelere novamente.

A estratégia de integração também carrega um risco: se a experiência unificada da Locaweb falhar em ser materialmente melhor que a de players pontuais (Shopify para e-commerce, especialistas em pagamento), o modelo de bundling não justifica lock-in de cliente. A Locaweb mitigou esse risco mantendo alto nível de API acess, permitindo que clientes integrem com terceiros, mas isso reduz o moat competitivo.

Fontes consultadas